Comportamento, música, futebol, moda, política, cinema, papo cabeça...
quinta-feira, setembro 18, 2008
Futuro do singular
Amarga
Transbordar
Trair-se

Grafar sentimentos e opiniões equivale a acomodar por aí o decodificador ou o decriptador da sua alma. Contra os ataques dessa natureza firewalls e anti-vírus e até mesmo a tropa de choque governista são inoperantes. Afinal, bondade ou maldade é apenas questão de vetor. Portanto, atenção, pois sempre haverá um hacker ou cracker de plantão querendo decifrar seu código genético, ético, etílico ou idílico e da ocasião faz-se o ladrão.
segunda-feira, agosto 25, 2008
Mergulhador

Como numa competição entre meninos, guardada nas memórias de sua infância, ele lançou-se ao fundo em apneia, a fim de saber o tempo limite de sua resistência. Ao longe um tubarão branco traçou seus planos. A vida já não abunda, descaso, descuido e insensibilidade fizeram do fundo um cenário triste composto de dejetos e lama. Este imprevisto o fizera vítima da lama. Ele faz os cálculos de sua resposabilidade na composição do cenário. O tempo é o bem mais precioso nessa era veloz. Ele segue no fundo resistente e determinado a vencer a lama e o predador, enquanto lhe passa na cabeça: Assim como as águas, morrem os amores.
quinta-feira, julho 03, 2008
Guetos, tribos e belas....
Um rosto, é só um rosto, já às idéias... Portanto, não faça juízos apriori!
sexta-feira, junho 20, 2008
Tolerância

Sou muito grato ao Gerbase, faz alguns anos que seu filme Tolerância, passou pelas telas do cinema nacional. E o briefing do filme me acompanha desde então. "É muito mais difícil ser Tolerante do que ser livre" já fiz algumas variações do mesmo, por exemplo "É muito mais difícil ser Tolerante do que ser fiel". Os casados, os namorados que o digam. Uma das coisas mais difíceis à natureza humana com certeza, é a conjugação e introjeção do verbo tolerar. Assim sendo, uma das maiores de todas as proezas é libertar-se da natureza humana. Não estou falando da forma idealizada e religiosa da palavra e sim daquela encontrada em nossos atos e na indiferença nossa de cada dia. Ser casado e ser feliz passa nescessariamente pelo entendimento e a introjeção do tolerar entre outras coisas mais.
sábado, março 15, 2008
Marinheiro ê, marinheiro ah...
sexta-feira, março 14, 2008
Histórias de Babel III: OmeleteMan
- Duas dúzias e meia, por favor.
Estas são tidas como suas últimas palavras.
Pelos recantos da casa muitos papéis impressos com as mais diversas e intrigantes receitas a base de ovos. O computador num canto da sala permanecia congelado no Google na página de número 666 da busca de receitas. A orgia gastronômica teve fim trágico. Quando Dona Gertrudes pela primeira vez fez uso da chave do apartamento de seu filho, foi movida pela preocupação manifesta na ausência das visitas pontuais que ele lhe fazia na hora do almoço. Antes não tivesse ido, pois encontrou uma cena triste e de enojar. O cheiro de ovo podre fustigava, louças emboloradas por lavar, uma cozinha digna de Conan o Bárbaro, o vomito só não aconteceu pelos seus dias de treino olfativo na pós-adolescência de seu filho, que nunca foi dado ao banho. O desespero foi instantâneo. Sua angustia transformou-se em dor quando ao abrir a porta do banheiro, encontrou o corpo em estado avançado de putrefação abraçado ao vaso sanitário.
As artimanhas de cada um para se impor, se opor ou preservar são dignas de um tratado. Aqueles que conheceram aquele escroto, sagaz e debochado jamais poderiam supor o tamanho da sua timidez ou até onde ela poderia o levar. O gordinho era gente fina, amado; todos o viam como um rabugento querido.
Dona Gertrudes era uma católica praticante, não faltava às missas da igreja São José nos dias de sábado. Sua orientação religiosa era intolerante a idéia de suicídio que ela supora o filho ter cometido. Wolfgan seu filho protegido, tiveram que passar a viver uma vida regrada a partir de alguns poucos anos atrás, dado o seu estado de saúde debilitado pelos prazeres da gula. Uma dieta a base de ovos na sua condição equivaleria a um disparo de nove milímetros na cabeça.
Terça feira, passados seis meses do trágico dia, Dona Gertrudes estava fazendo a vistoria final da reforma do apartamento pertencente à família e onde o filho tivera triste fim. De volta para a casa subiu a rua em direção ao largo onde deu de encontro com uma enorme feira. Com tempo, entrou e despretenciosamente começou a observar os preços nas bancas, eis que da por si parada na frente de uma banca de ovos. Uma moça, no auge de seus 20 anos, a percebe de dentro da banca.
- Ovos frescos da colônia patroa, não têm preço melhor na feira, pode chegar e conferir. Leva duas dúzias e meia e paga duas.
Gertrudes se aproxima e vê uma Gisele pobre, mas com medidas mais ao gosto popular e pergunta:
- desde quando tu trabalha aqui
- desde os quinze
- Qual o teu nome?
- Camila.
- Oi Camila! Por acaso tu conheceu um gordinho na casa dos 30, cabelo curto, muito querido?
- A senhora ta falando do Wolfinho?
- Wolfinho?!... É, é esse mesmo
- Bah, nosso melhor cliente. Se não me engano, ele me disse que tem uma fabrica de merengue. Faz um tempo que ele não aparece. Ótimo cliente. Só meio exigente. Só aceita ser atendido por mim.
Quarta feira em Zero Hora:
Mulher é presa após agredir feirante e destruir banca.
Aos palavrões e gritos de perua safada dona de casa agride feirante e destrói banca. Foi preciso a intervenção da Brigada Militar e auxílio de populares para conter a transtornada senhora. Recolhida ao instituto psiquiátrico permanecia em estado de choque...
Dois anos após, finalmente sai o laudo do IML para o falecimento de Wolfinho: Dupla falha do coração.
Mundo
Here comes the Sun
Esta é uma vida de busca e quase nenhuma certeza, inclusive na precisão de quais são as buscas ou qual é ou são os valores fundamentais. Dá margem. Às vezes a tristeza vem nem sei de onde em velocidade surpreendente como nuvens de uma tempestade que embaladas pelo vento surpreendem o sol e os bons momentos parecem tão distantes que paira a dúvida se algum dia eles existiram. Aprisionado na busca fiz-me servo da alegria. Viva George Harrison!!!! “Here comes the Sun”
sexta-feira, março 16, 2007
Histórias de Babel : Maria Alice, amor e esperança.

Alice tinha quatro anos quando entrou na creche, por incrível que pareça, as muitas possibilidades de amiguinhos fizeram que ela pouco ou nada se importasse com a ausência dos pais em seu primeiro dia. Sua vida social até então se restringia a sua casa, um mundo particular repleto de bonecas e bonecos princesas e príncipes e uns dois ou três sapos por garantia, a casa dos avós e tios e a raras idas à praçinha, onde, enfim, tinha uma vida social mais indicada a alguém de sua idade. Filha de pais com prazo de fertilidade vencendo, encontrou somente adulto e adolescente na família. A creche surgiu como promessa de círculo social e treinamento de sociabilidade e outras brincadeiras mais. Já na primeira semana, prestou atenção em um menino diferente e experimentou uma sensação não vivida até então, Inácio tinha sempre os cabelos em desalinho, as roupas ao fim do turno como se tivessem sobrevivido ao front da primeira grande guerra, um resto de coriza seca ora numa narina ora
Alice - As joaninhas, as joaninhas.
Inhonho - Powerangers força animal! Mata ele, mata-ele...
Veio a primeira série, a segunda, o secundário, a universidade, e sempre mais do mesmo, apesar de poucos, mas diferentes protagonistas.
A preocupação com o passar do tempo levou Alice a ter uma conversa-desabafo com uma amiga e fazer-lhe perguntas como se a mesma fosse um oráculo - Porque é tão difícil? Eu nem quero tanto, mas onde andam os homens sensíveis, educados, gentis, elegantes, estilo marcante, cheirosos, compreensivos, carinhosos, conhecedores de tantra, Shiatsu, filosofia oriental, Fernado Pessoa, apreciadores de vinhos, cinema europeu, que gostem de Vitor Ramil, Chet Baker, Gardel, Gotham Project, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Zeca Baleiro, Ben Harper.... falem espanhol e não sejam gays?
Alice já era título de romance. Era mulher com mais de trinta quando reencontra Inácio, sua primeira paixão, e percebe que ele ainda levava consigo seu jeito de menino-problema, aquele jeitinho de rock and roll. Conversam, relembrando a creche, os chutes que ele lhe desferiu, blábláblá. E muita conversa, depois de coisas em comum e muitas não, começam a sair e inevitavelmente o sensor de incompatibilidade apita e para estar em desacordo estabelecem relações. Ao acordar ao seu lado ela lhe olha docemente e pergunta:
Alice - A serenidade do amor influi?
Inácio - Linha de cinco, isso, esses varzeanos jogam com uma linha de cinco no meio!!!
Alice passou a vida se guardando para o príncipe encantado. Mas o tempo é breve e de nada adiantou economizar a vida para gastar em abundância com seu príncipe. Vida em homeopatia dá câncer. A morte, traiçoeira e brincalhona como irmã siamesa da vida que é, pegou um atalho e Alice morreu sem descobrir em vida quem era ou onde estava ele. Mas o sorriso no canto da boca enrijecida no leito de morte fez a amiga pensar que, enfim no inferno, Alice encontrou no chefe local o príncipe que povôo seus sonhos e que a persuadia continuar a busca. E o inferno era o próprio céu perto da vida de busca eterna.
Socorro!!!

O futuro sem dúvida é construído no presente. E o futuro da humanidade há muito tempo vem sendo pintado em variações de cinza. O fundamentalismo está vendo crescer um contraponto no terceiro mundo latino: as seitas evangélicas. Pena que a passividade só acaba quando nos atingem, isto se ainda sobrar forças para a reação, pois há perigos que não se mostram por inteiro à espera de um momento oportuno e aí pode ser tarde demais. Lamentavelmente, minhas esperanças de ver um país ou uma sociedade melhor estão cada vez mais distantes da realidade. Toda a falta de vontade política para por fim nas desigualdades acabou criando um terreno fértil para a religião. A busca de uma saída ou de uma desculpa desaguou no plano espiritual. Num discurso simples e frágil na medida exata para ser absorvido pelos desprivilegiados, ou seja, a grande maioria da população. O poder de sedução deste novo perigo é invejável e já gerou um grande império, que deu seus primeiros passos importantes ao eleger deputados, vereadores e senadores. Após, lançaram-se nas telecomunicações, começado pelo centro do país. Em vida, vejo Edir Macedo adquirir a empresa Caldas Junior, leia-se TV Guaíba, Rádio Guaíba e Jornal Correio do Povo. Não pense você tratar-se de mais uma chuva de verão. Ao ver os índices de audiência que a TV Record atingiu em pouco tempo, acabando com a saúde do então mago/midas Sílvio Santos, qualquer ser de inteligência média fica apavorado. A estratégia de contratar da Rede Globo e SBT seus melhores profissionais, apresentadores, ex-apresentadores, apresentadores aposentados ou em fim de carreira (Cid Moreira, Mara Maravilha...) todos muito bem afinados no discurso. Louvado seja deus nas alturas e a grana no banco. Acho que vou procurar um desencapetamento.
sábado, novembro 25, 2006
Com Manah, adubando dá!

Plantar é uma terapia gratificante, quanto mais tempo você se predispõe a gastar nos cuidados com a sua planta, maior será o retorno que ela lhe dará, através de lindas folhas, brotações, flores, frutos, abrigo... As plantas também têm suas particularidades entre uma espécie e outra e também entre as iguais. Quem tem esse hábito sadio sabe do que estou falando. Duas violetas nas mesmas condições não respondem identicamente. Criar filhos tem uma similaridade com o plantio de umedecer os olhos de quem sabe o valor de um beijo, um sorriso, um abraço. Quando conjugados transformam as cores do dia em cores de película de filme europeu.
sábado, agosto 26, 2006
Adios pampa mio!

O calor é insuportável, as notícias assustam: a maior seca do novo século, El niño implacável... Os efeitos da monocultura, o desrespeito às margens dos rios e nascentes, o uso indiscriminado de agrotóxico, os dejetos lançados aos rios sem tratamento, o efeito estufa, lixo que escorre pelos bueiros, o descaso das autoridades e muitas outras tantas façanhas em nome do progresso levam a natureza a apresentar a conta. No Taim, mais uma vez a falta de respeito às normas de transito e a má sinalização tem levado milhares de ornitorrincos e ednas à morte, quando saem em busca de água. Coalas mortos são encontrados aos bandos à volta de lagos do mais puro Roundap. Salasier Martins, de volta ao trabalho após o longo período de congelamento, brada aos costumes no telejornal: “Até quando o descaso das autoridades levará à morte milhares de bichinhos inocentes”. Os lençóis freáticos secaram, a terra é árida. O deserto verde é a vedete dos desinformados e dos sofistas. As grandes plantações de eucaliptos são ocupadas por máquinas e coalas corsários que devastam as plantações em busca de pastilhas Valda legítimas. O caos está estabelecido. Milhares de populares revoltados, em estado de mais pura miséria, acampam na entrada das grandes plantações de eucalipto em busca dos empregos prometidos pelos políticos e empresários. As pessoas perguntam se não há trabalho, não há comida qual é a finalidade de tanto papel higiênico, guardanapos e afins produzido a partir da madeira do eucalipto que acabou com parte de nossa identidade cultural: o Pampa Gaúcho. Vamos convir, como faz cocô esse pessoal do primeiro mundo, ainda mais se for num país de terceiro mundo qualquer, onde sempre haverá um Abelardo I aplicando a Lei de Gerson a qualquer custo.
Quer saber mais?
terça-feira, agosto 22, 2006
Who’ll Stop The Rain???

Inundações, desabamentos, maremotos, afogamentos... São muitas as coisas ruins a que nos remete a chuva. O contra-ponto é a chuva da lavoura, a que abastece rios e represas, a da diversão de criança, a da antológica cena de “Dançando na chuva”, com Gene Kelly e Debbie Reynolds, pra ficar no que me vem rapidamente à memória. Mas a minha admiração maior em relação à chuva está no mito. A chuva está presente em muitos mitos de fertilidade e passagem. A chuva é renascimento e vida nova. Na tragédia grega ela marca o início de um novo ciclo. Na cultura Inca, somada a lua, representava purificação. Para os indianos, mulher fecunda é chuva. Na Bíblia, em Isaías, 45, 8 está dito: “Que os céus, das alturas derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover a vitória, abra-se a terra e brote a felicidade e ao mesmo tempo faça germinar a justiça!”.
A conotação popular traz em si miséria, sofrimento, falta de sorte. E quando pão e circo é apenas uma expressão do passado, acaba reforçando aquela sensação de impossibilidade, da ausência de melhor perspectiva e conspiração divina que acompanha o inconsciente popular. O que vem a ser a alegria da elite e dos que comungam em ideologia. No velho Marx está dito de forma mais rebuscada que a alegria de um é a desgraça de outro.
Quando a chuva veio pela primeira vez, a primeira coisa que me veio à cabeça foi renascimento, mas com medo da conspiração divina, calei-me. Na segunda vez que a chuva surgiu, estava tomado de pânico, pois afinal, a história poucas vezes favoreceu o povo. Mas enfim, os mitos não estão aí à toa e o colorado sagrou-se campeão, com muita batalha e com muito sofrimento, fazendo jus a toda e qualquer conquista de alguém do povo. E a lua surgiu no céu.
domingo, agosto 20, 2006
Histórias de Babel : O jogo sem fim

Era um típico domingo modorrento de inverno em Porto Alegre. As nuvens pintadas de chumbo, indiferentes as caricias do minuano, conduziam impiedosamente para a introspecção. Lembrou-me a Náusea. O estádio Ramiro Souto, no Parque da Redenção, estava preste a entrar para história. Contaria, ao menos uma vez, a história dos sem-história. Havia todas as coisas necessárias a uma final de várzea: disposição, entusiasmo, dedicação, torcida, churrasqueiras feitas de meio tonel, samba, camisas de golas puídas e muita animação. Os times já estavam em campo, e com a bola rolando zagueiro e avante de times opostos - jogadores da mesma faixa de campo-, mediam-se lado a lado fazendo inveja à memória das falecidas torres gêmeas. Não era somente o dia de saber quem seria o campeão, era também o dia em que Sérgio, filho do Sampaio, iria aproveitar-se de um dos poucos momentos em que Paulão forçosamente baixava a guarda e deixava sua irmã Rosinha desacompanhada, embora Paulão tenha se empenhado muito em tentar convencer os demais companheiros de equipe da possibilidade dela fazer uma excelente dupla de zaga com ele. Uma partida de várzea de verdade é um evento social, muitas vezes, até mais do que esportivo. Era um jogo de alma gaúcha, viril, porém limpo. As equipes não tinham chegado até ali sem méritos, equivaliam-se. A prova contundente foi o término do tempo normal em 3x3 e 1x1 na prorrogação. O jogo dirigiu-se a dramática loteria dos pênaltis. Sérgio encontrou a reciprocidade de Rosinha ao levar a cabo seu plano traçado nas madrugadas mal dormidas. A paixão e o amor, quando dispostos, são carrascos sem pares. Muitos torcedores, empanturrados de cerveja e churrasco, já haviam esquecido o motivo original de sua ida até ali e o samba ficou animado. Deixa a vida me levar. Já com o fim da tarde de pouca luz, iniciou-se a cobrança das penalidades. Os dois times ficaram alinhados na linha divisória do gramado, extremamente extenuados, cada um daqueles anônimos teve, além das noites mal dormidas por força da ansiedade da partida decisiva, seus dias de labuta atrás de uma direção de caminhão, carrinho de pedreiro, balcão do comércio, roleta de ônibus. Restou rezar a Deus pelo sucesso desta pequena grande façanha. Porém, é o mesmo Deus de todos os presentes e, na melhor forma de seu bom humor característico, atendeu a todos, menos os goleiros, e nenhuma bola foi desperdiçada. Os torcedores aos poucos se foram. Já era meio da tarde de segunda-feira quando o administrador do parque, atendendo a solicitação de um professor de educação física do Colégio Militar, pediu que o campo fosse liberado para a aula marcada, transferiu a cobrança das penalidades para o campo suplementar de areia. Camila, a primeira das três filhas de Rosinha com Sérgio, vai debutar no próximo final de semana sem poder contar com a presença do tio, que segue ainda lá defendendo o brio dos comuns. Se você tiver a oportunidade de passar por ali observe aqueles senhores que mais parecem sobreviventes dos farrapos jogando ao fundo. Sim, são eles mesmos.
As páginas da vida

Aqui estou eu, em frente à tv, assistindo novela ao mesmo tempo em que digito este texto. Não façam pré-conceitos, novela é o ícone da cultura pop que mais me agride, motivo pelo qual não assisto desde o início dos anos 80. O que faço eu aqui então? Bem, depois de uma determinada idade as coisas ficam mais complexas e as histórias mais compridas, mas nem por isso menos interessantes. Uma das coisas boas da memória são as boas lembranças. Recordar é viver é saudosista e estático demais pra mim, já, recordar é viver o hoje melhor, se encaixa melhor a minha maneira de ver as coisas, embora isto já esteja mudando o rumo do assunto. Poder ter participado, acompanhado a trajetória de alguém, é uma das coisas que enriquece a sua vida, poder, pela exemplificação, apropriar-se do conhecimento vivido na experiência alheia. Vou ater-me num exemplo composto de vontade, determinação, competência e dedicação. José era um menino tímido e franzino, até mesmo pra mim é difícil imaginar um leonino tímido e franzino, mas as coisas mudam. Entre travessuras de moleque e as responsabilidades cotidianas - aqui vem um lapso de memória - ele comprou ou ganhou um violão. A música como maneira de expressão passou a fazer parte de sua vida através da convivência com seus colegas do Instituto de Educação: Jorge, Márcio, Luiz Henrique, Marcelo e outros que não lembro mais. Começa a fase Stairway to heaven, depois veio a paixão pelo dodecafonismo, influenciado por Arrigo Barnabé, o rock and roll, as tardes de sábado assistindo o mestre Abelardo Barbosa e os Thundercats. O jovem José decide-se pelo contrabaixo. Nessa fase, arriscamo-nos no dodecafonismo com a interminável música Elvira, a que se vira pra se sustentar. Começam as aulas de contrabaixo com baixistas da cena local, as aulas na escolinha da OSPA. É mais ou menos nessa época que a Chácara das Pedras começou a sua fase de consolidação em bairro de elite, o adeus a velhos amigos espantados para a periferia que mudava para mais além. Começaram novos contatos, novas amizades. Vai morar no bairro o casal Ralfinho e Terezinha que recebem a visita de seus muitos amigos: Léo, Baca, Gustavo, Henry, Mendel, Sidnei e tantos outros, de gostos musicais variados. Todos esses amigos novos - menos a Terezinha - tocavam algum instrumento. Havia um quartinho no fundo da casa deles em que foi montado um precário, mas eficiente, estúdio de ensaio. Por ali passaram muitos músicos que encheram de música as manhãs, tardes, noites e madrugadas da chacrinha. Lá, tocavam de Jeff Beck, Frevo, MPB, Pink Floyd a outros rocks mais, sem discriminação. Ali também passavam muitas cantoras e promessas de cantoras e foi dai que veio o primeiro show do jovem Zé no Clube de Cultura, acompanhando Luciana Costa. A platéia lotada de amigos orgulhosos, afinal ali estava um representante legítimo da antiga chacrinha, a prova viva de que tudo era possível a eles também, sem se descuidarem de num momento ou outro soltarem um grito: Zé mulher. Bordão esse que acompanhou o saidinho e ex -franzino até boa parte dos shows de sua banda os Good-byes. Banda com fortes influências do reggae e do pop. Sérgio no vocal, Léo na guitarra, Zé no baixo e Fernando na bateria, mantêm a banda até hoje, embora por bem tenham entendido que o primeiro nome escolhido deveria ser alterado. Encontro-me aqui, assistindo não o desenrolar de uma trama de fórmula inalterada e guiada pelos altos índices de audiência, mas a vitória da vontade da determinação de uma história real e como todas elas imprevisíveis, estou assistindo a tomada de assalto do capítulo de segunda feira, 14 de agosto, de Páginas da Vida, por Zé e seu grupo os Papas da Língua. Assisto mais uma grande página na vida, com um orgulho indescritível e gritando para mim como nos velhos tempos: Zé mulher!!!!